quinta-feira, 17 de março de 2011

O temor nuclear e a doutrina do choque

A terra em transe. O terceiro maior país do mundo tremeu. Literalmente. E o sismo trouxe uma gigante onda (de incerteza). Doutrinadas pela perplexidade, milhares de pessoas discutem a segurança da modelo energético atômico após a iminência de uma contaminação radioativa em massa no Japão. O ministro do Meio Ambiente da Áustria, Nikolaus Berlakovich, exigiu testes de segurança em todas as usinas europeias. A França, embora possua 80% de sua energia proveniente da atividade atômica, afirmou que o momento não é para alardes.
E a conclusão a que se chega é: os testes serão feitos? Talvez. O resultado provável: energia nuclear é segura. Se não for, é a possível (leia-se economicamente viável, ou ainda, maior geradora de lucro$). O argumento: energia nuclear não emite gases de efeito estufa. O movimento político pró-energia atômica só faz questão de omitir os contras, lembrados agora em todo o planeta e, dentre os quais, o maior é possibilidade de um acidente que liberaria partículas capazes de modificar códigos genéticos e até mesmo levar à morte.
Na última segunda-feira (14), as empresas cujas ações sofreram queda mais expressiva nas bolsas europeias foram aquelas que exploram essa polêmica fonte de energia. As corporações que trabalham com energia eólica e solar, pelo contrário, foram as que tiveram suas ações mais valorizadas nos pregões do velho continente. Mas, ao que tudo indica, esse cenário deve voltar às antigas, visto que ao menor sinal de rejeição ao modelo nuclear por algum líder importante, surge um bombardeio de afirmações a favor do modelo. Faça um teste: ligue sua TV, procure por uma pauta sobre o acidente nuclear. Não será difícil. Se houver um especialista sendo entrevistado por um longo tempo, ele fatalmente estará dizendo: "- O que aconteceu no Japão foi uma exceção. O modelo nuclear é seguro."
O capitalismo de desastre, tão bem definido por Naomi Klein, já marca presença. "Grandes corporações" estadunidenses estão usando o acontecimento para auto-promoção às custas alheias, duplamente, diga-se de passagem. Explico: sob a redoma da benevolência, a Dysney fará uma arrecadação de US$ 2,5 milhões entre seus funcionários para distribuir às vítimas da terra do sol nascente. Que Louvável! Fazer caridade com recursos que não lhe são de direito para divulgar o feito entre suas ações "socialmente responsáveis".
E quando as circunstâncias apontariam para uma mudança postural do Brasil com relação à energia atômica, mais uma vez a doutrina do choque entra em cena. A Eletronuclear afirma uma novidade tecnológica: as quatro usinas nucleares que serão construídas em solo tupiniquim até 2030 terão controle de segurança automatizado. Oras, como se isso impedisse a contaminação dos arredores em caso de acidente. 
Interesses de grupos dominantes sobrepujam os princípios da proteção e valorização da vida em todas as suas formas. A mídia, que deveria suscitar debates e cumprir com seu papel social, limita-se a reproduzir o discurso dos gananciosos. Os governos agem, como sempre, de acordo com seus "valores". Mas eles os tem? Ah, valores financeiros, evidentemente! E se o clamor público surtir efeito, seja cauteloso. O capitalismo apontará alguma solução pseudo-sustentável, economicamente viável e sócio-ambientalmente desastrosa.
O momento é de incertezas. A suscetibilidade da população global diante dos riscos decorrentes da radiação não são, de todo, ruim. Quem sabe as circunstâncias não promovam um levante em massa contra a exploração da energia nuclear...

2 comentários:

Guará Matos disse...

A Energia Nuclear é uma loucura! Perigosa e fatal.
Eu sou apaixonado pelo Japão e essa situação esta me fazendo sofrer e ficar muito preocupado. Que todos os Deuses iluminem e protejam o povo japonês.

Bjs.

Pâmela Belliato disse...

Realmente, Guará! É muito preocupante e ainda mais sofrido para um povo que já penou com as bombas de Hiroshima e Nagasaki...

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