quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desenvolvimentismo etnocêntrico X ecocentrismo: uma questão para além da Amazônia Brasileira


Progresso. Algumas definições segundo o dicionário Michaelis: "Marcha ou movimento para diante; Melhoramento gradual das condições econômicas e culturais da humanidade, de uma nação ou comunidade; Transformação gradual que vai do bom para o melhor". Embora geralmente associado ao desenvolvimento econômico, o progresso tem também conotações subjetivas. A incapacidade de compreender a forma de outra cultura enxergar certas circunstâncias, entre elas o progresso, resulta no etnocentrismo, definido pelo doutor em antropologia Everardo Rocha como "uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência."
Na ocasião do Achamento do Brasil, ancoraram em terras brasileiras os portugueses, crentes de que trariam  a esses solos o "progresso". Entrou em curso um processo de aculturação e dizimação dos povos nativos. Catequização e genocídio de indígenas caracterizaram a violência a que eles foram submetidos para "desenvolver" o Brasil colonial.  Já no século passado, sobretudo durante o regime militar, o neocolonialismo ficou evidente com o avanço do latifúndio sobre as terras indígenas, respaldado pelo Estado. E esses não foram fatos isolados na história brasileira. Tudo em nome do tal do desenvolvimento.
Atualmente, as intervenções estatais e  megaconstruções na região amazônica, segundo o governo, visam desenvolver aquela área. Todavia, essa é uma visão etnocentrada, que não considera os pontos de vista dos povos tradicionais.
A instalação da Usina de Belo Monte é o exemplo mais conhecido. Entre embates jurídicos e tentativas de barrá-la, a construção segue. Segundo o governo, o intuito é garantir a soberania energética e promover o desenvolvimento da região. Vários protestos surgiram contra a construção. O mais conhecido do grande público, intitulado "Movimento Gota D'Água" foi encabeçado pelo ator Sérgio Marone e promovido por muitos outros globais e gerou reações apaixonadas, impensadas e a ira de alguns setores dentro da militância do partido governista. Embora a proposta do movimento tenha sido boa, a forma como a campanha foi conduzida ganhou ares sensacionalistas, em detrimento da divulgação de informações mais profundas sobre o tema.
Nesse contexto, iniciou-se um levante pró-Belo Monte por parte de alguns grupos acadêmicos de universidades públicas (sobre isso, vale a pena ler "Belo Monte: a batalha dos vídeos", excelente análise publicada no Correio da Cidadania). O debate entre militantes da situação e oposição se intensificou. Alguns filiados ao partido do governo chegaram a afirmar que o "Gota D'Água" foi uma manobra da rede Globo para entravar o combate à pobreza na região amazônica. Porém, ainda que a Globo seja conhecida por suas práticas criminosas, moldar as discussões sobre Belo Monte em embates políticos só agravou as dificuldades de chegar a um consenso cujo objetivo seja a proteção do patrimônio social, cultural e ambiental da região.
A Amazônia não é apenas uma das regiões mais biodiversas do mundo. É, também, sociodiversa, com populações ribeirinhas e cerca de 180 povos indígenas. O etnocentrismo incutido no modelo desenvolvimentista em curso no Brasil desconsidera essa sociodiversidade. A relação entre não-índios e a terra é baseada na propriedade, no capital e, em geral, desvinculada de valores ancestrais. Com os indígenas,   pelo contrário, a relação é muito mais consciente, fundamentada no saber comunitário, no respeito à mãe natureza: há uma relação emocional. Se, por um lado, para não-índios o progresso pode significar o crescimento econômico, de outro, para os povos indígenas, essa noção de desenvolvimento parece estar muito mais atrelada ao crescimento interior e fortalecimento comunitário dentro de seus valores culturais. Por consequência, é imperiosa a transição entre o paradigma desenvolvimentista (violentamente imposto) por uma abordagem mais respeitosa aos direitos humanos (e não humanos também): uma abordagem ecocêntrica, focada nos valores da natureza e no ser humano como mero integrante de um ECOssistema. Superar o etnocentrismo exige que superemos também o antropocentrismo. Já não há espaço para o determinismo que situa o homem como condicionante do universo.

0 comentários:

Postar um comentário