sábado, 14 de janeiro de 2012

O agronegócio e a antiética da Veja

A revista Veja dá mais uma aula de mau jornalismo. Especializada nessa prática, a publicação do último dia 4 dedicou 5 páginas para defender o uso de venenos no campo. A matéria intitulada "A verdade sobre os agrotóxicos", amplamente repercutida entre ruralistas, tem o claro objetivo de desqualificar o cultivo de orgânicos e tenta, por meio de especialistas notadamente ligados ao agronegócio, convencer os leitores sobre a "segurança" do uso de agrotóxicos. Por isso, a  associação "AS-PTA - Agricultura Familiar e Agroecologia"  divulgou em seu boletim um excelente artigo que desmistifica os argumentos usados pela Veja. Para conferir o texto na íntegra, clique aqui!
A estrita relação entre a revista semanal mais lida no país e os interesses das transnacionais do agribusiness não é novidade. Vale relembrar a abordagem do tema "Transgênicos", que mudou de acordo com os interesses do mercado. Em “Sementes que valem bilhões” (1998), a revista associa a transgenia ao desenvolvimento agrícola e a uma saída para a fome no mundo. Dois anos depois, na seção “Ciência”, a Veja publicou “O transgênico já é parte da sua vida”, reportagem na qual os OGMs são citados como uma revolução na produção de alimentos. No final de 2004, a reportagem especial “A solução chamada transgênicos” destaca supostos benefícios dos OGMs para o meio ambiente.
Já em 2009, foi publicada a reportagem “E os lucros secaram...”, que trata da queda dos rendimentos da soja transgênica em relação ao grão natural. Somente alguns anos depois das sucessivas investidas pró-OGMs, a Veja alertou para dois problemas com a transgenia: “O primeiro deles é a disseminação de ervas daninhas resistentes ao glifosato. Elas reduzem a produtividade da lavoura, porque concorrem com a soja na busca de nutrientes e luz solar.” Já a segunda questão aparece carregada de escárnio: “Os europeus recusam a soja transgênica e outras sementes geneticamente modificadas por mera superstição. Acham que alimentos produzidos a partir deles podem fazer mal à saúde, embora nenhuma pesquisa científica, até o momento, tenha comprovado essa crendice.” 

Por fim, o que se nota nas publicações da Veja é a subserviência mercadológica. São sucessivas tentativas de barrar o crescente movimento agroecológico e quaisquer circunstâncias que possam servir de entrave à manutenção e expansão do agronegócio. O Artigo 2º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, inciso II, dispõe que: “a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”. Quando, por exemplo, o editor escolhe uma pauta, a neutralidade se esvai. A imparcialidade é uma utopia. Porém, isso não significa que o jornalismo, na sua função quase sacerdotal, possa assumir a defesa de interesses privados. O jornalista deve fazer da ética a sua pauta. Já dizia Cláudio Abramo, “Um jornalista não tem ética própria, isto é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão”. 


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